segunda-feira, 6 de abril de 2015

Conversas com o oráculo #01

Estava eu posto em caminhada, dessas que começo sem ter motivo, apenas para sentir o movimento dois pés, e inundado nas águas de sórdidos dizeres vindos de meu interior. Pois de forma despretensiosa me pus a caminho de Delfos, atraído por livida melodia oitavada, meio simplória mais cheia de conteúdos ocultos, destes que brotam na cabeça de quem ousa transformar um impulso primitivo em canção.

Avistado o monte pude perceber que longa fila o rodeava, fila esta composta por variados tipos de seres, uns meio humanos, outros meio bestas, outros híbridos. Postei-me em posição derradeira, atrás de uma figura que me lembrava Taweret, e supus que ali não haveriam pois privilégios nem para as divindades de outrora, na verdade nem para as de hoje.

Sinal desse trato igualitário dado no templo era o próprio formato do templo em si, uma caverna que muito lembrava a de Zaratustra. Devo dizer que dispus de agradáveis diálogos nos dias que foram necessários em espera, em especial com um monge bêbado que me fez lamentar minha condição sóbria, porém devo tratar destes assuntos em texto separado para não desviar o objetivo deste.

Pois na entrada da caverna-templo encontrava-se inscrita a famosa frase: " Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo". Fui informado por um servente do local que atribui-la aos sete sábios era um erro comum. Em verdade vos digo, a autoria pertence a Hermes Trimegisto.
Pois ao entrar na caverna descobri que esta dava para uma entrada menor, coberta por uma porta muito simples, sem nenhum adorno especial, com um aviso escrito de maneira tosca com tinta vermelha (daquelas bem baratas), "SALA DO ORÁCULO, PARA PODER ADENTRAR ESTE SAGRADO RECINTO MUNDANO, DEIXE SUA OFERENDA PARA O DEUS APOLLO NO PRATO AO LADO". Ao lado, além do prato, havia um caderno desses que se compra em qualquer papelaria, para que os visitantes pusessem escrever a sua oferenda, destacar a folha e por sob o prato, que era de porcelana finíssima.

Assim fiz, solícito, logo depois me foi autorizado entrar na sala do oráculo. Sala esta que se encontrava num breu quase absoluto, a não ser por um pequeno espaço que era fracamente iluminado por uma vela de sete dias, dessas que as pessoas acendem para os orixás.
Desse pequeno espaço veio a voz grave, mas ao mesmo tempo suave, severa mas delicada, misteriosa mas estranhamente familiar, que tomou toda a minha atenção (coisa que não é fácil).

– Aqui tu chegaste depois de longa espera, longa porém merecida, esta é sempre a primeira lição: paciência. Faça pois a sua pergunta.
– Acontece que já nem lembro mais o motivo que trouxe até aqui – disse com toda sinceridade – perdão pela minha estupidez.
– Por sorte sua sou oráculo, e nesta condição não entrei sem méritos, tu mesmo viste tão longa fila de espera que se forma para uma consulta comigo. Senta pois e escuta aquilo que tenho para dizer.
Sentei no chão mesmo, o chão era coberto por confortável grama, e nem pus a escutar os dizeres de tão sabia figura.
– Tudo que está embaixo também esta encima, guarde isso, nossas percepções nos limitam. Falarei primeiro sobre sentidos e percepções, estes falsos Virgílios que nos levam pela canhota nos círculos terrenos.

 

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