Certo dia numa cidade, caminhava tranquilo pensando no nada, que de tão inconcebível me pego sempre pensando nele. Na realidade as pernas são a força propulsora de minha cabeça, o seu movimento ativa as engrenagens de minha mente confusa, por isso quando me toma a angústia, me ponho em serena caminhada.
Pois nesse dia algo desviou a atenção dos meus questionamentos interiores: triste lamento vindo de um ponto próximo ao que me encontrava. Curioso e sinceramente tocado por aquele choro, procurei sua origem. Descobri que vinha do muro lateral de uma casa, não de dentro do muro, mas do muro em si. Decidi pois questionar o motivo do pranto daquela figura singular feita de tijolos.
— Bom dia senhor, se me permite, não pude deixar de notar vosso pranto, tomo a liberdade de perguntar-te o motivo, se não for ofensivo de alguma forma claro.
— De forma alguma, pois em todos esses anos em que canto minha dor, tu és o primeiro a se interessar por ela, — seu pranto cessara mas sua voz continuava triste e lamentosa — penso que nem todos tem ouvidos para ouvir-me.
— Pois bem então diga-me, que mal te toma assim dessa maneira, que mesmo em bom estado de conservação, e cercando uma residencia que apesar de não ser tão grande, possui uma aparência extremamente digna, choras de forma tão copiosa?
— Meu caro, lamento minha própria essência, fatalmente dúbia. A angústia me toma de tal forma que só em penar no meu ser, me acabo em lágrimas.
— Pois também eu vivo em angústia, e de tanto conviver com ela já lhe sou terno, aprendi a examina-la como parte de minha jornada. Mas me conte mais a respeito dessa sua essência dúbia.
— Acontece que, sou feito para proteger, mas também sou feito para aprisionar. Isso me impede de ter um propósito claro pois tiro e dou liberdade. Não consigo me definir de forma clara pois nunca soube, nem nunca sei onde termina uma função e começa outra, apenas faço, e isso me deixa triste.
— Se lhe serve de consolo, todos temos um pouco dessa natureza, te digo isto com convicção. Tente examinar seu caso por um prisma diferente, pois liberdade e falta de liberdade, estão condicionadas a nossa compreensão, que sofre com os caprichos do meio que nos molda. Saiba que um dia eu retornarei ao seu encontro e nesse dia espero que tenha dispertado uma visão menos pragmática a respeito de si. Por hoje devo partir pois minha hora é chegada.